Civilização · Anatólia · c. 9600 a.C.
Göbekli Tepe: o templo de 12 mil anos que veio antes da civilização
Sudeste da Turquia atual · Leitura de 6 minutos

Neste artigo
Em 1994, um pastor curdo tropeçou numa pedra alta demais para ser natural, enterrada no alto de uma colina seca no sudeste da Turquia. O sítio, décadas antes, havia sido dispensado por uma equipe de Chicago como um cemitério medieval sem importância. A avaliação estava errada por seis mil anos.
O arqueólogo alemão Klaus Schmidt passou dez minutos no topo da colina e soube que não era um cemitério. Era anterior a qualquer coisa que a arqueologia mundial tinha catalogado. Ele passaria os vinte anos seguintes escavando e morreria em 2014 com menos de cinco por cento do sítio revelado. O que encontrou reescreveu a ordem em que a civilização surgiu.
O que é Göbekli Tepe
Göbekli Tepe, "a colina do umbigo" em turco, fica a vinte quilômetros da cidade de Şanlıurfa, no sudeste da Turquia. É uma colina artificial de nove hectares e quinze metros de altura, erguida por gente que viveu antes da escrita, da cerâmica e da roda.
Sob a terra, as escavações revelaram pelo menos vinte círculos monumentais de pedra, dos quais apenas quatro foram completamente expostos. Cada círculo se organiza em torno de dois grandes pilares centrais em formato de T, cercados por dez a doze pilares menores encaixados em muros de pedra seca.
"Primeiro veio o templo, depois a cidade." > (Klaus Schmidt, Sie bauten die ersten Tempel, 2006)
A origem: engenharia antes da cidade
Os números são o primeiro choque. Os pilares em T chegam a cinco metros e meio de altura e pesam até dezesseis toneladas. Foram esculpidos em calcário numa pedreira a trezentos metros do sítio, arrastados colina acima e encaixados na vertical com precisão geométrica.
Muitos trazem baixos-relevos de animais: leões em posição de salto, raposas, escorpiões, cobras enroladas, aves de rapina, javalis e touros. Em pilares mais recentes, braços humanos dobrados e cintos com fivelas sugerem que os T representam figuras humanas estilizadas, talvez ancestrais, talvez divindades.
Quem ergueu aquelas colunas não morava ali. Eram caçadores-coletores nômades, gente sem cidades, sem celeiros e sem rebanhos domesticados, sem nada que a história clássica considerava pré-requisito para uma obra dessa escala.
Linha do tempo de Göbekli Tepe
- c. 9600 a.CCaçadores-coletores erguem os círculos mais antigos, seis mil anos antes de Stonehenge e sete mil antes das pirâmides de Gizé.
- c. 9000 a.CA domesticação do trigo einkorn avança em Karaca Dağ, a trinta quilômetros do sítio.
- c. 8000 a.COs próprios construtores enterram o complexo sob toneladas de entulho, num ato ritual deliberado.
- 1994Klaus Schmidt reconhece o sítio como anterior a tudo que a arqueologia havia catalogado.
- 2014Schmidt morre com menos de cinco por cento da área escavada, e Lee Clare assume a direção.
- 2018Göbekli Tepe é reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO.
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A virada: a religião pode ter inventado a agricultura
Durante o século XX, a arqueologia trabalhou com uma sequência canônica, o chamado modelo de Childe. Ela funcionava assim: a agricultura produz excedente, o excedente permite o assentamento, o assentamento gera hierarquia, a hierarquia gera religião organizada, e a religião gera templos. O monumento era o último degrau da escada.
Göbekli Tepe virou a escada de cabeça para baixo. O sítio sugere que primeiro veio o impulso ritual e a necessidade de reunir gente num mesmo lugar. Alimentar essas pessoas durante meses de trabalho coletivo exigia mais comida do que a caça e a coleta sustentavam. A agricultura, nessa leitura, teria nascido como solução logística para um problema sagrado.
A geografia apoia a hipótese. A trinta quilômetros dali fica Karaca Dağ, onde geneticistas identificaram o ancestral selvagem direto do trigo einkorn, a primeira variedade cultivada do mundo. Em 2012, Oliver Dietrich e a equipe do Instituto Arqueológico Alemão publicaram evidências de banquetes em massa no sítio: ossos de gazela e auroque entre os pilares e vasilhas de calcário com resíduos de fermentação de cevada.
Por volta de 8000 a.C., os próprios construtores enterraram o templo. Despejaram toneladas de entulho e ossos de banquete nos círculos até cobrir os pilares. Não foi abandono. Foi um ato deliberado, coletivo, ritualizado. Selaram o santuário sob a própria colina, e ninguém sabe por quê.
O legado: a espécie que constrói e enterra
O padrão se desenha com clareza desconfortável: a religião pode ter inventado a civilização, não o contrário. Não começamos organizados pela fome. Começamos organizados por algo que ainda não sabemos nomear direito, capaz de mobilizar corpos, tempo, comida e memória em torno de um projeto sem utilidade prática imediata.
Seis mil anos antes de inventarmos a palavra "cidade", já sabíamos coordenar uma obra de dezesseis toneladas por pilar. E, quando o projeto cumpriu sua função, sabíamos também como encerrá-lo com um ritual equivalente ao que o fundou. Toda civilização que veio depois herdou as duas capacidades: a de erguer e a de sepultar o que ergueu.
Menos de cinco por cento da área foi escavada. Há ao menos dezesseis círculos ainda enterrados, detectados por georadar, à espera da próxima geração de arqueólogos. A colina do umbigo guarda a maior parte da própria história.
Perguntas frequentes
Quantos anos tem Göbekli Tepe?
Os círculos mais antigos de Göbekli Tepe foram erguidos por volta de 9600 a.C., o que dá cerca de 11.600 anos. O sítio é aproximadamente seis mil anos mais antigo que Stonehenge e sete mil anos mais antigo que as pirâmides do Egito, além de anterior à invenção da escrita, da cerâmica e da roda.
Quem construiu Göbekli Tepe?
Göbekli Tepe foi construído por caçadores-coletores nômades, gente que ainda não vivia em cidades nem praticava agricultura sistemática. A descoberta surpreendeu a arqueologia porque, até então, se acreditava que obras monumentais só apareciam depois de sociedades sedentárias e agrícolas.
Por que Göbekli Tepe foi enterrado?
Por volta de 8000 a.C., os próprios construtores cobriram o complexo com toneladas de entulho, ossos e cascalho, num ato deliberado e ritualizado. As hipóteses vão de um "desativamento" religioso a uma mudança de cosmologia, mas ninguém sabe ao certo por que decidiram selar o santuário sob a colina.
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